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Urbanização de São Paulo: Chicago ou Paris?

Em 1878 fundou-se em São Paulo o primeiro sistema de abastecimento de água a Companhia de água e esgoto Cantareira. São Paulo já estava em ebulição, era o destino preferido dos cafeicultores interioranos, também dos imigrantes europeus. 
O processo de urbanização paulistana é uma síntese de contradição copista: os primeiros barros criados para elite indicava europeização da cidade (Campos Elísios, Indianópolis e o próprio Higienópolis que remete a questão da limpeza racial) para clarificar nossa proposição de copistas às avessas havemos de lembrar que diferente do que fizeram os europeus com seus rios São Paulo os matou ou fez com que sumissem embaixo do asfalto (caso Tamanduateí e do riacho Anhangabaú – o primeiro canalizado vergonhosamente sujo e poluído, o segundo sumido da Avenida 9 de julho). Em 1912 inicia-se a canalização do Tamanduateí juntamente com um projeto de aterramento das várzeas deste e do Anhangabaú. Este foi é o primeiro episódio que marca o desastrado urbanismo paulistano. “A cidade cresce e novos problemas surgem”. Os rios Tietê e Pinheiros são vistos como novos empecilhos ao desenvolvimento da cidade. Mais uma catástrofe urbanística está por vir.
Década de 20 os engenheiros Francisco Saturnino Rodrigues de Brito e Francisco Prestes Maia aliado a Ulhôa Cintra travaram choques ideológicos sobre projetos para solucionar as questões das inundações das várzeas, a fluidez do transito nascente, problemas sanitários e questões imobiliárias que já se faziam presentes como nos informa o documentário “Entre Rios a urbanização de São Paulo” produzido pelo coletivo Santa Madeira (2009). Saturnino de Brito Dizia ser necessária a preservação das margens e várzeas para criação de parques – a partir disso o desenvolvimento urbano. 
Em 1938 Prestes Maia é nomeado prefeito da cidade e dá início a seu “Plano de Avenidas”; simples cópia de planos radiais concêntricas de cidades europeias, porém com um detalhe que tornaria a São Paulo atual numa das piores cidades em relação a transito de automóveis. Não colocou em seu projeto ferrovias e hidrovias tal qual os originais, sua meta era beneficiar industriais automobilísticas e atender a especulação imobiliária seduzida pelas várzeas do Rio Tietê. Em seis anos de governo, Maia, sentenciou São Paulo ao caos. Marco Antonio Sávio[1] (professor do departamento de História da UFU) assegura que
A fragilidade institucional do Brasil a uma proeminência do privado sobre o público. Existe uma área pública? Entregasse uma área pública para o setor privado – a especulação imobiliária vence ou então: nós temos o dinheiro X para construir mais linhas de metrô, (diz-se) não! Vamos construir mais pistas na marginal porque é bom para os automóveis e você nota investir sempre, da preferência sempre ao transporte individual.

Segundo Alexandro Barreto[2] não é um simples ajuntamento de pessoas envolvendo questões espaciais sim um fato generalizado entre os povos sempre no intuito de atender certos tipos de mercados. No entanto a urbanização não programada e estruturada pode causar desgastes a unidade urbana, pois não há espaço e nem todos podem pagar os preços que as cidades mais procuradas cobram pelo m² do terreno ou mesmo imóveis com financiamento governamental estão ao alcance de toda população.  
Ainda consoante Barreto nos países em desenvolvimento é rara a preocupação com o desenvolvimento urbano no seu limiar, diferentemente do que ocorre em países desenvolvidos.
No Brasil a população urbana saltou de 36%, dado1950, para 81% em 2000. A década de 50 (Séc. XX) no âmbito político e imobiliário foi efervescente para o país devido o sentimento evolucionista de Juscelino Kubitscheck, porém o mercado paulistano já dava sinais de força conforme veremos mais adiante. A essa altura o viés copista do empresariado paulistano não os permite assemelhar-se a cidades europeias, mas a Chicago com edifícios imponentes e ruas superlotadas de carros como sinônimo de avanço. Para o Professor Alexandre Delijaicov (departamento de projetos FAU-USP)
                                        
                                         Nós estamos todos abduzidos por esse urbanismo rodoviarista, todo mundo acha que precisa do automóvel, quando na verdade não precisamos. Então dentro dessa visão de reversão disso: no lugar de fluxo falar de percurso, no lugar de esterilizar ruas com este urbanismo rodoviarista transformar os passeios públicos numa rua viva sendo o urbanismo da confiança e não do medo – que hoje as pessoas estão trancadas nos carros, não é isso? São resignadas a esse pau de arara chamado de ônibus (...).

Líderes governamentais são viciados a um fatalismo incorrigível sempre dispostos a entregar a jazida do que comprar a tecnologia para trabalhar nela, afirma não dispor de recursos entrega áreas ou bens estratégicos a iniciativa privada que garante alto faturamento; o ramo imobiliário é um dos beneficiários da incapacidade gestora das organizações brasileiras. De costas para as questões ambientais de forma inteligível São Paulo (e todo Brasil) age pontualmente, isoladamente em resposta a necessidades corriqueiras ou pontuais[3].
São Paulo já teve 4.000 km de rios e córregos. Hoje menos de 400 km permanecem a céu aberto. Há menos de cem anos, riachos, corredeiras e córregos existiam no lugar de algumas das principais ruas e avenidas da cidade. A Nove de Julho era o Saracura, a 23 de Maio, o Itororó. Vladimir Bartalini, professor de arquitetura da USP e colega de Delijaicov, vem mapeando esses córregos ocultos de São Paulo para oferecer à população a informação de que onde ela anda, ou roda, corre um riacho. "Assim poderemos reverter a associação dos rios com aspectos negativos, como esgotos, lixo, inundações, e abrir frentes para o tratamento criterioso dos espaços livres"
 Alexandre Delijaicov[4] é arquiteto e urbanista da Universidade de São Paulo (USP). Tem um projeto ousado para a capital o que “metrópole fluvial” com construções de ecoportos, ciclovias, enfim, resgate total da malha hidroviária, etc., porém tudo esbarra em questões políticas. 
Num contexto um tanto genérico, o Brasil, apesar de sua dimensão continental iniciou seu processo de urbanização de maneira muito idêntica em muitos pontos do país no final século XIX e início do XX conforme sugere Maricato (2009, p. 22)
Eram feitas obras de saneamento básico e embelezamento paisagístico, implantavam-se as bases legais para um mercado imobiliário de corte capitalista, ao mesmo tempo em que a população excluída desse processo era expulsa para os morros e as franjas da cidade. Manaus, Belém, Porto Alegre, Curitiba, Santos, Recife, São Paulo e especialmente o Rio de Janeiro são cidades que passaram, nesse período, por mudanças que conjugaram saneamento ambiental, embelezamento e segregação territorial.
 Este corte capitalista no mercado imobiliário ainda é uma vedete para o empresariado atualmente. Abussamra (2009) assevera que no processo de urbanização paulistana prevaleceram formatos chamaríamos de quasimodais não entendêssemos o viés capital.
Principalmente desde os anos 80, é a busca pelo esgotamento do potencial construtivo, o que se torna muito simples entender-se com base na diminuição da oferta e o aumento do custo por metro quadrado de lotes inseridos em bairros como de boa infraestrutura e, portanto, de fácil comercialização do futuro edifício a ser implantado (...) O tempo passou rápido, demais perdemos a condução da cidade, já que esta é feita principalmente pelos agentes de produção, e não somente por legisladores.
 O futuro não garante dias melhores para consumidores que por algum motivo desejem morar nestas áreas. Apesar dos equívocos em sua urbanização a capital paulista é detentora dos lotes mais caros dos países igualmente a cidade Rio de janeiro com um potencial turístico invejável, porém com problemas urbanísticos tão grave quanto. Só temos problemas nestas cidades (arquitetônicos, viários, violência, etc.), mas como explicar a crescente dos preços? Enfim quais são estas forças que vão além da realidade dada e tornam uma realidade projetada e ilusória muito mais forte que a sensível? Quais os homens não conseguem ir além do útil e não do necessário!




[1] Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=Fwh-cZfWNIc&list=PLb- Dy31dTrKSoNCaST+C6IC6v Hamobbnna > Acesso em: 10 out. 2013.
[2] Disponível em: Acesso em 10 jan. 2014
[3] Disponível em: < http://revistatrip.uol.com.br/print.php?cont_id=31586 > Aceso em: 05 jan. 2014.
[4] IBIDEM

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