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Fim do mundo. E se...?

Alguns adoram esta frase (e se...). É um vício na utopia, é uma porta para algo improvável, uma prévia de uma hipótese; um apego ambíguo a realidade. vai saber... 

O "e se" é tão intenso que já desestruturou o Armagedom tido como certo por algumas religiões, quica a última etapa das sociedades dos homens; fato é a frase celebre "e se o mundo acabasse" pôs um gostinho de dúvida no fim de todos. Este "e se" nega a certeza do fim tão cantado por carolas e afins.

Os cientistas afirmam que mais alguns milhares de anos o sol, que é uma estrela como tantas, deixará de brilhar, será o fim da terra; os ascetas e os séquitos religiosos juram que falta pouco:

UMA HORA é o que prega a comoção geral! O que faria? O que farei?

Quis pensar em abandonar o agnosticismo e ir a genuflexão. Melhor não, não gosto lideres, o anarquismo me é mais forte.

Não se sabe se coincidência iniciou-se um eclipse não previsto pelos astrônomos dez minutos anteriores a hora  da desdita.

O pavor, a tormenta, a insensatez estão instalados nas faces esquálidas dos cidadãos - agora - transeuntes sem origem, sem berço nem honrarias, sem seus protocolos soberbos.

Sinais de rádio, telefone e TV são abalados, nada serve, nunca serviram também, só a alguns...

Deveria estar assustado... Não sinto nada; dor; sentimento de perda; remorso, nada. Tenho 27 anos, reajo sem lamentações, feito um homem de 90 anos que amou e odiou a vida - neste momento não se importa. Sente-se bem, sem culpa.

Madames deixam suas poses de lado e rasgam suas roupas em sinal de desespero. Donas de casa, gordas pelo sedentarismo, quebram o que podem acompanhadas de um “NÃO” vindo de suas entranhas.  A arrogância dos homens engravatados e outros carregadores de pulseiras de ouro parecem ter lhes dado um efeito inverso e levando-os a trejeitos de fêmea, não querem aparentar mais tão másculos. Fechei a janela!

Como é o fim talvez não devesse agir sobre nada... Escrever, pensar, falar, registrar. Ninguém lembrará, não servirá, não haverá história, ouvintes ou emissores. Está tudo muito estranho... Será o efeito cascata do pânico coletivizado?

Um calafrio pergunta: Por que o fim grupal é mais sombrio que o particular? Talvez no particular já esteja o fim coletivo que não se tem nova oportunidade para entender diferente disso.

Parece que o "e se" agora “é”. Sinto uma necessidade insólita de registrar este momento, mas para que? Se vamos todos?

Não quero fenecer triste. Para esta hora exijo uma trilha sonora: alguns acordes psicodélicos das guitarras dos anos 70, "letras em sexto sentido" e distorções de toda sorte com pedais gastos pelo tempo. Enquanto isso deito no chão a olhar o zênite. 

De onde virá fim? De baixo, de cima? Do meio? Tirarão o oxigênio, a gravidade? Sei lá! Os acordes soam mais fortes que a histeria na rua. Tudo bem! Posso ter um orgasmo ouvindo as distorções das guitarras e do sax.

Temos algum tempo... Não sinto dor, saudade... Fui explorado nunca quis o explorador, quem sabe isso justifique a inércia emocional. Não é hora de ressentimentos, agora sim somos todos iguais diante de um eclipse acompanhado de uma ideia fixa da humanidade. “E se...?”

"E se" não houver destruição como pintam as profecias? 
Bastaria o fim da força gravitacional, a falta luz ou qualquer outra condição atípica ao corpo humano. Sei lá! Ou ainda outros fatores de vida que não temos conhecimento, pois nossa atenção está fadada ao terrorismo dos deuses (primeiros exemplares de regimes totalitaristas) ou a certeza da ciência.

Não vou correr para abraçar ninguém, não vou me entregar ao frenesi da massa absorta em círculo. Todos em busca de novos sortilégios. Sentado no sofá a beira do abismo observo (ouço) o brado da multidão antes dada as alegrias toscas, ao presenteísmo, a reza e ao pecado (segundo suas próprias crenças) agora perdidos dentro de si, pois não existiam personalidades próprias, sim mimeses em respostas as eventualidades. Neste momento não sabem o que são - não se reconhecem como nada, apenas como perdidos.

Nada me apavora! Nenhum movimento sob os pés somente a penumbra tornada soturna pelo alarido.

Talvez não haja fim e o fim que se espera esteja somente dentro de cada um... O fim como validade mental da sociedade: obsolescência programada involuntária. Afinal  a humanidade precisa (desde que pensa ter saído das sombras) romancear seus dias, nada melhor que o masdeísmo validando suas ações.

Abro a janela.

Extasiados em seu desespero sobem, descem, pulam, gritam; ouvem-se lamentos, louvores, blasfêmias; vê-se esconderem-se, desmaios, outros se abraçam, pedem perdão...

Num momento de calmaria outros oferecem ajuda e alimento aos pobres. Se não uma tarde traçada para o fim diria que estamos num final de ano caloroso (não é natal).

O eclipse toma força! As guitarras vibram em meus tímpanos, os olhos não querem compreender a histeria por não acreditar...

Replica o juízo: a massa vive de qualquer ideologia ou dogma (no cerne se equivalem).
Se a penumbra propuser a nova forma de vida humana logo estarão habituados, só não poderão dizer que "não há nada de novo embaixo do sol" uma vez que reine a sombra. Pouco mudará. Surgirão novos antolhos dogmáticos e ideológicos; os intelectuais continuaram insulados; novas mulas sentarão em tronos presidenciais, nas cadeiras numeradas das academias literárias; farão novos produtos para a hora da morte e uma nova data para o fim do mundo. Teremos uma sociedade renovada pronta para o "novo fim:" o de ser feliz a qualquer custo - na terra ou não. 

Faltam 5 segundos. (?)

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